Sardella no couvert, rondelli de prato principal e bife à parmegiana de acompanhamento.

Por aqui, essa parece uma refeição típica de cantina, mas muitos italianos se assustariam, já que nenhum desses pratos existem dessa maneira na Itália.

São diversas as receitas atribuídas ao “país da bota” que, na verdade, foram inventadas ou adaptadas no Brasil.

Muitas dessas criações e adaptações foram feitas por falta de ingredientes tradicionais daqui, quando os imigrantes vieram, outras foram apenas inspiradas na nação europeia.

De acordo com Gerardo Landulfo, delegado da Accademia Italiana della Cucina, organização com sede em Milão, dois dos pratos comumente atribuídos à Itália são totalmente brasileiros.

Um deles é  filé a Parmegiana

“O filé a parmegiana com arroz e fritas foi todo criado aqui. Outros pratos podem ter uma diferença ou outra, mas nada é tão chocante como essa composição”, afirmou à ANSA.

Outra criação brasileira é o polpetone , “totalmente criado no Brasil porque na Itália é feito no forno, não é frito e não tem o excesso de molho”.

Frango com polenta

Há coisa italiana mais típica em Curitiba do que o frango com polenta? A iguaria servida nas cantinas tradicionais de Santa Felicidade é na verdade uma invenção bem brasileira, talvez até curitibana.

Embora no Norte e Nordeste da Itália pratos com polenta e aves de caça sejam comuns e apreciados, não existem versões com frango, menos ainda frito. “Provavelmente foi alguma adaptação que os emigrantes italianos do começo do século XX fizeram ao chegar no Brasil”, pondera Ambrosetti.

O modo de preparo da polenta também é diferente: por lá é mais firme e grossa, preparada com fubá na panela de cobre, aqui é mais cremosa e frequentemente é feita com farinha branca.

Linguiça calabresa

Pelo nome não teria dúvidas: a linguiça calabresa seria da Calábria, região do Sul do país da bota. Mas nada disso. Segundo o chef Ambrosetti, a linguiça que mais se parece com a calabresa se chama salsiccia cacciatora e é um embutido típico do Centro da Itália.

Pela picância, a linguiça calabresa pega o nome da pimenta calabresa, outro ingrediente que na Itália é conhecido como peperoncino (que em italiano significa pimenta). Mas um fato é certo: os calabreses são grandes apreciadores de peperoncino e de comidas apimentadas.

Palha italiana

O doce feito de brigadeiro e biscoito não tem nada de italiano. Sua origem é brasileira e, muito provavelmente, do sul do país onde há forte colonização da Itália. A “inspiração” pode ter sido no “salaminho de chocolate”, que existe no país da bota, mas que tem construção diferente do brasileiro.

Fogazza

Apesar de muitos acharem que a origem do prato é a “focaccia” italiana, a receita é bem diferente – e também foi criada no Brasil. A massa de farinha e batata é frita e recheada com queijos ou especiarias diversas. Já a “focaccia” é um pão assado e macio, que é servido com azeite e alecrim e tem origem em Gênova. O que pode ter inspirado os brasileiros é o “panzerotto”, tradicional de Milão.

Pizzas com coberturas “exóticas”

Pizza de chocolate, de cream cheese, de estrogonofe, frango catupiry…. são milhares de variações que chegam às mesas dos brasileiros nos mais diferentes restaurantes. E não, não há nada de italiano nessas coberturas digamos, exóticas, para o tradicional prato italiano.

Os sabores diferentes foram criados por cozinheiros e chefs Brasil afora.

“Agora, aqui no Brasil, estão fazendo mais ao estilo italiano, com farinha mais leve. Aqui, por uma tradição cultural, as pizzas tem mais recheio do que massa, e fica mais pesada”, diz Landulfo.

Sardella

A receita de Sardella é uma receita típica da região da Calábria, feita com sardinha e condimentos. O processo é o mesmo há séculos: o peixe é pescado entre fevereiro e abril, lavado com água doce e colocado para secar com sal. Depois, os peixes são colocados para salgar entre seis e sete meses, de onde é extraído o molho e misturado com condimentos.

Mas, no Brasil, é feito com pimentão e variações de anchovas e sardinhas compradas já prontas. No entanto, Landulfo afirma que a receita muda de “região para região” e a feita no Brasil acaba tendo uma inspiração italiana.

Cappuccino com chocolate

Se você for à Itália e quiser um cappuccino com chocolate, você não vai encontrar. Mais uma adaptação brasileira, a receita é basicamente é a mesma nos dois países, com a exceção da adição do chocolate: um café expresso, diluído em leite, com a “crema” [creme] do leite vaporizado.

Rondelli

Apesar do nome italiano, o rondelli – enrolado de massa com recheio – não existe no país europeu. Lá existe o “rotoli” ou “rotolini”, que tem uma receita muito parecida com a brasileira.

Bolognese

Caso semelhante ao rondelli, o molho bolonhesa ou bolognese tem uma receita similar na Itália, mas chamada de ragú. Agora, o que não existe lá é servir o “espaguete à bolonhesa”.

“Não se faz com espaguete esse molho, mas com tagliatelle, uma massa fresca. O que pode ter inspirado é o “ragù alla bolognese” que não é só carne moída e molho de tomate. A receita tem três tipos de carne, pouquíssimo molho de tomate e tem um cozimento muito mais demorado. A bolonhesa é uma adaptação mais simples”, diz Landulfo.

O sorvete napolitano não é de Nápole

O sorvete napolitano foi originado nos EUA, no final do século 19, e é provavelmente uma referência aos bolos de sorvete de 3 camadas criado por Giuseppe Tortoni, um napolitano dono do popular Café Tortoni, em Paris, no início do século 19.

Este conteúdo foi publicado originalmente no site da ANSA.

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